Culpa, Sonho e a Perda de Si

Quantos sonhos perdidos, acabados ou inacabados, abandonados, desmanchados, abalados, arruinados, destruídos. Em meu cotidiano profissional, são tantos adjetivos negativos delegados aos próprios sonhos, que muitas vezes opta-se por deixar de sonhar. Tal contexto advém da culpa.

A culpa é algo inerente ao ser humano, e toda vez que a sentimos, provavelmente remoemos, nos assustamos e nos envergonhamos de ter feito algo que não se queria fazer. O sentimento de culpa sempre vem acompanhado de uma sensação de conflito. E diante do conflito, é mais fácil fugir. No entanto, o conflito pertence a alguém, a culpa pertence a alguém, e fugir disso significa fugir de si mesmo.

De acordo com Pompéia e Sapienza, 2017, quando se vive a culpa, há a sensação de ter sido alguém que não gostaria de ser, ou seja, a pessoa sente-se menor do que gostaria de ser, há um distanciamento entre ela e o sonho de como ela quer ser. Sendo assim, “sinto-me culpado quando não correspondo ao sonho que tenho de ser melhor” (p. 93).

E quando se ouve de alguém: “eu entendo sua forma de agir, você não tem culpa”, retirando-lhe totalmente (a culpa), alimenta-se a sensação de que de fato, ele nada vale – já que nem mesmo a culpa pode lhe pertencer – e não pode sequer sonhar em ser alguém diferente. Mesmo não sendo algo agradável, toda culpa tem um significado, a medida em que a retira de alguém, este alguém sente a ausência desse significado, ou seja, torna-se alguém insignificante.

Pois bem, como um insignificante, pode sonhar? Uma vez que se afasta da culpa, afasta-se também de si mesmo, e por conseguinte, de seus sonhos, estes que vão se perdendo e deixando de existir.

Diante disso, onde está a humanidade que perde a si mesmo? Assumir a própria responsabilidade é uma tarefa árdua, sendo mais fácil e menos dolorosa, momentaneamente, a fuga. Esta que alivia, mas nos distancia de nós mesmos, deixando buracos, crateras e pessoas cheias de sintomas emocionais e físicos.

Mesmo que um sonho se vá, se a capacidade de sonhar permanecer, outros sonhos virão.

Ana Paula Gasparotto Paleari
Psicóloga Clínica e Responsável Técnica da Clínica-Escola das Faculdades Integradas de Jaú.

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